Trabalho de conclusão de curso da Univates prevê melhorias na infraestrutura, novas áreas habitacionais e um memorial às vítimas das cheias de 2023
Após enfrentar três grandes cheias em oito meses, Muçum busca alternativas para adaptar o planejamento urbano aos riscos climáticos. Um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Arquitetura e Urbanismo da Universidade do Vale do Taquari (Univates) propõe mudanças no bairro Centro e na orla do Rio Taquari, com medidas voltadas à prevenção, à reorganização territorial e à preservação da memória das tragédias.
Intitulado “(Re)Existir: requalificação urbana do bairro Centro e da orla do Rio Taquari no município de Muçum/RS”, o estudo foi desenvolvido por Andreia Pires, sob orientação da professora Jamile Maria da Silva Weizenmann. A proposta parte da necessidade de planejar a cidade considerando a possibilidade de novas inundações, em vez de simplesmente reconstruir as estruturas anteriores nos mesmos locais.
Muçum foi atingida por cheias em setembro e novembro de 2023 e em maio de 2024. Na última, o Rio Taquari chegou a 26,35 metros, nível recorde no município. Conforme os dados reunidos na pesquisa, 896 famílias ficaram desalojadas, 220 perderam definitivamente suas casas e cerca de 90% do comércio local foi afetado.
Projeto prevê mudanças na infraestrutura e na habitação
O estudo analisou características do território, incluindo o uso do solo, a mobilidade, os equipamentos urbanos, as edificações históricas e a cobertura vegetal. A partir desse diagnóstico, identificou fragilidades como a falta de espaços de lazer e problemas de mobilidade, além dos riscos associados à recorrência das cheias.
Entre as propostas estão a requalificação de ruas e calçadas, a implantação de ciclofaixas e a reorganização da expansão urbana em áreas menos suscetíveis a inundações.
O projeto também prevê novos loteamentos habitacionais, incluindo a área denominada Jardim Cidade Alta 2, destinada à realocação de famílias que perderam suas casas nas enchentes.
Outra intervenção sugerida é a criação de um parque linear ao longo da orla do Rio Taquari, conectado a espaços públicos e pontos de interesse histórico. A proposta inclui ainda rotas turísticas que valorizem o patrimônio local, como a Ponte Brochado da Rocha, parcialmente destruída pela cheia de setembro de 2023.
Memorial homenagearia vítimas da enchente
Um dos elementos centrais do projeto é o memorial “Raízes da Resiliência”, concebido para homenagear as vítimas da enchente de 4 de setembro de 2023.
Conforme o estudo, o espaço teria aproximadamente 96 metros de extensão, com paredes de concreto aparente, iluminação e elementos produzidos a partir de materiais metálicos recuperados após os danos causados pela cheia.
A proposta busca preservar a memória coletiva e criar um espaço de reflexão sobre a tragédia, integrando a homenagem à requalificação urbana da área.
Planejamento de longo prazo
O trabalho apresenta ações previstas para curto, médio e longo prazo, com horizonte de cinco a 15 anos. Entre as medidas estão a elaboração de um plano municipal de contingência, melhorias urbanas e a estruturação de uma rota turística de alcance regional.
A pesquisa também se relaciona a iniciativas de planejamento territorial desenvolvidas pela Univates em parceria com o Governo do Estado. O trabalho conjunto contempla a revisão dos planos diretores de sete municípios do Vale do Taquari: Arroio do Meio, Colinas, Cruzeiro do Sul, Encantado, Estrela, Muçum e Roca Sales.
As minutas dos planos diretores foram entregues aos municípios ao longo de 2026 e incluem estudos sobre áreas inundáveis, zonas de risco, habitação e expansão urbana. A orientação é que o crescimento das cidades considere os riscos identificados após as enchentes.
O TCC apresenta propostas acadêmicas que podem servir de subsídio técnico para futuras políticas públicas. A execução das intervenções, porém, depende de avaliações, planejamento e decisões do poder público.









