Estrutura na localidade de São Bento poderá tratar até 60 mil litros de dejetos por dia; projeto prevê futura geração de energia elétrica e reaproveitamento dos resíduos na agricultura
Uma granja de suínos na localidade de São Bento, no interior de Cruzeiro do Sul, iniciou nesta semana a preparação do terreno para a construção de um biodigestor. O projeto do produtor rural Humberto Persch prevê investimento inicial de R$ 500 mil, com possibilidade de chegar a R$ 1 milhão caso seja implantado, em uma segunda etapa, um sistema de geração de energia elétrica a partir do biogás.
A propriedade mantém cerca de 8 mil suínos, que chegam à granja na fase inicial de criação e seguem posteriormente para a etapa de terminação, em um sistema integrado a uma empresa do setor. A implantação do biodigestor busca solucionar um problema ambiental enfrentado pela propriedade: o forte odor provocado pelo acúmulo de dejetos.
Os trabalhos de terraplanagem contam com maquinário do Consórcio de Municípios do G8 e são coordenados pela Secretaria Municipal da Agricultura. O secretário da pasta, Gerson Kolling, acompanha a execução dos serviços. O vice-prefeito de Cruzeiro do Sul, Carlos Spiekermann, também esteve no local na quarta-feira (28) para acompanhar o andamento do projeto.
Sistema poderá tratar até 60 mil litros por dia
A primeira etapa prevê a construção de uma lagoa com quatro metros de profundidade e área de 836 metros quadrados. A estrutura terá capacidade para armazenar aproximadamente 1,8 milhão de litros de dejetos, com recebimento diário estimado entre 50 mil e 60 mil litros.
Conforme Jairo Buss, representante técnico da empresa Bio Fronteira Biodigestores, responsável pelo acompanhamento do projeto, o sistema permitirá tratar os resíduos produzidos na granja e reduzir o odor característico da atividade.
O processo será realizado por biodigestão anaeróbia, na qual microrganismos decompõem a matéria orgânica na ausência de oxigênio. A lagoa será coberta com uma lona para captar o biogás produzido durante esse processo.
Após o tratamento, o material residual poderá ser utilizado como fertilizante em lavouras e áreas de pastagem, desde que receba o manejo adequado. A destinação agrícola permite aproveitar nutrientes presentes nos resíduos e contribui para uma gestão mais eficiente dos dejetos da produção animal.
Projeto prevê geração de energia
Depois da implantação do sistema de tratamento, o produtor pretende avançar para uma segunda etapa, com a instalação de equipamentos para gerar energia elétrica a partir do biogás.
A proposta é utilizar o metano presente no gás como combustível para motores conectados a geradores. A eletricidade produzida poderá atender ao consumo da própria granja e, conforme a configuração do sistema e o cumprimento das exigências técnicas e regulatórias, poderá haver possibilidade de injeção de energia na rede da concessionária.
Essa etapa exigirá novos investimentos. Por isso, o custo total estimado de R$ 1 milhão considera tanto a estrutura de tratamento quanto a futura geração de eletricidade.
Tecnologia tem potencial de expansão no Rio Grande do Sul
A iniciativa de Cruzeiro do Sul ocorre em um cenário de ampliação das discussões sobre o aproveitamento energético dos resíduos da suinocultura no Estado.
Um levantamento apresentado em maio de 2026 pela Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), em parceria com o Ministério da Agricultura e Pecuária, a Embrapa e o Instituto 17, identificou 29 estabelecimentos que já operavam com biodigestores no Rio Grande do Sul. Em conjunto, essas propriedades tratavam 523,6 mil metros cúbicos de dejetos suínos por ano e evitavam a emissão de 17,6 mil toneladas de dióxido de carbono, conforme os dados divulgados.
O estudo também identificou 254 propriedades com escala produtiva suficiente para viabilizar a instalação de biodigestores individuais. Caso esses sistemas sejam implantados, poderão evitar emissões adicionais estimadas em 255 mil toneladas de CO₂ por ano.
Além da geração de energia renovável, os biodigestores podem contribuir para reduzir odores, melhorar o tratamento de resíduos e diminuir os riscos de contaminação do solo e da água, desde que os sistemas sejam operados corretamente e os resíduos tratados tenham destinação adequada.
No caso da propriedade de Cruzeiro do Sul, a primeira etapa está concentrada no tratamento dos dejetos. A geração de eletricidade permanece prevista para uma fase posterior, condicionada à realização de novos investimentos.
Fontes: Grupo A Hora; Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação do Rio Grande do Sul.

