ANTT marca encontros sobre nova concessão da Malha Sul. Região quer incluir o uso turístico do Trem dos Vales no edital e evitar que Ferrovia do Trigo fique fora dos investimentos.
A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) marcou para julho as audiências públicas sobre a nova concessão da Malha Sul, hoje operada pela Rumo Logística. O processo abre uma etapa para apresentar a proposta e coletar sugestões.
Pelo apresentado até agora, o governo federal prevê dividir a malha em três corredores: Mercosul, Rio Grande e Paraná-Santa Catarina. O modelo desagrada governos do Sul e setores produtivos, pois pode concentrar o interesse privado nos trechos mais rentáveis e deixar ramais internos sem recuperação. No RS, o principal eixo apontado nos estudos é a ligação Cruz Alta–Rio Grande, voltada ao escoamento agrícola e portuário.
Nesse desenho, a Ferrovia do Trigo e o Tronco Principal-Sul ficam fora da prioridade para cargas. Para o Vale, essa exclusão muda a estratégia regional. Se o trecho não aparece como corredor logístico central, a mobilização passa a ser pela inclusão do uso turístico da ferrovia dentro do futuro edital.
É o que afirma o presidente da Associação dos Municípios de Turismo da Região dos Vales (Amturvales), Rafael Fontana. De acordo com ele, a região defende segurança jurídica ao Trem dos Vales, para que o edital estabeleça também o uso turístico. Hoje, a operação dos passeios depende de autorizações temporárias da concessionária.
O objetivo é permitir a retomada permanente dos passeios, com previsão de investimentos na recuperação da malha. A alternativa pode envolver obrigações da futura concessionária, recursos vinculados à reforma da ferrovia, como previsto em contrato com a Rumo Logística, ou uma parceria entre governo federal, iniciativa privada e organização regional.
Etapa atual
A recuperação do Trem dos Vales ocorre em paralelo à discussão da nova concessão. Em Muçum, vagões chegaram para apoiar a recomposição dos primeiros 18 quilômetros da Ferrovia do Trigo. A expectativa da Amturvales é retomar os passeios turísticos até o fim do ano, no trecho inicial entre Muçum e Vespasiano Corrêa.
A etapa atual envolve limpeza da faixa ferroviária, retirada de terra, recomposição de trilhos, recuperação de taludes e reorganização da estrutura operacional. Depois disso, municípios e entidades precisam avançar na liberação da circulação de passageiros, com laudos técnicos, avaliações estruturais e comprovação das condições de segurança.
O projeto regional, porém, vai além da retomada parcial. A proposta é recuperar os 46 quilômetros do percurso turístico entre Guaporé, Dois Lajeados, Vespasiano Corrêa, Muçum e com ampliação até Santa Tereza. Estimativas apresentadas por prefeitos apontam necessidade de R$ 60 milhões a R$ 100 milhões para recompor todo o trecho, incluindo pontes, túneis, viadutos e obras de maior complexidade.
Dois estudos foram levados a Brasília. Um deles reúne diagnóstico técnico da ferrovia, com fotos, levantamentos de engenharia, mapeamento dos danos e propostas de recuperação. Outro demonstra os impactos econômicos do Trem dos Vales antes das enchentes, quando o passeio movimentava hotéis, restaurantes, agroindústrias familiares, vinícolas e o comércio regional.
Estado contesta modelo
A discussão sobre a Malha Sul também ocorre em meio à reação do governo gaúcho contra a modelagem federal. O Piratini contesta o fatiamento da concessão e a exclusão de trechos considerados pouco atrativos para cargas. A avaliação é que a divisão em lotes pode repetir problemas da concessão atual, com maior interesse nos corredores rentáveis e abandono dos trechos deficitários.
O governo do RS articula uma posição conjunta com Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul por meio do Codesul. A intenção é contratar uma consultoria técnica para analisar os estudos federais e apresentar alternativas ao Ministério dos Transportes. Entre os modelos em avaliação está o chamado open access, no qual uma empresa administra a infraestrutura e diferentes operadores podem disputar o transporte sobre a mesma malha.
No diagnóstico federal, a Ferrovia do Trigo aparece com baixa atratividade para cargas. Essa condição reforça a necessidade de outro enquadramento para o trecho regional. Para a Amturvales, reconhecer o turismo no edital permitiria tratar a ferrovia como ativo econômico, cultural e territorial.
Prorrogação com a Rumo
Outro ponto em debate é a possibilidade de prorrogação temporária do contrato atual com a Rumo Logística. A concessão vence em 2027, mas o atraso na nova modelagem pode levar a União a estender o vínculo por até 24 meses, para evitar que a malha fique sem operador até a conclusão do novo leilão.

